Saúde Mental, Violência e Resistência: a Voz das Mulheres em São Miguel

Flávio

Flávio

Dec 06, 2025

Saúde Mental, Violência e Resistência: a Voz das Mulheres em São Miguel

Gravado em novembro, mês marcado pelo Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher, o novo episódio do podcast Na Calçada da Gente traz uma conversa profunda e necessária com a psicóloga Eudiny Saldanha. A profissional, que atua há sete anos na área da saúde mental, compartilha sua experiência no atendimento a mulheres de São Miguel e reflete sobre os desafios emocionais, sociais e culturais que atravessam a vida feminina no interior do Brasil.

A escolha de novembro para a gravação não é por acaso. A data do dia 25, instituída em memória das irmãs Mirabal, lembra a urgência de discutir a violência de gênero e fortalecer caminhos de cuidado e proteção. E a urgência se ampliou na última semana, quando novos casos de violência e feminicídio no país chocaram a sociedade e reforçaram a necessidade desta conversa.

Da clínica ao cotidiano: a realidade das mulheres em São Miguel

Durante a entrevista, Eudiny revela que cerca de 90% de suas pacientes são mulheres, muitas delas lidando com ansiedade, depressão, baixa autoestima, transtorno de pânico e, em alguns casos, violência psicológica ou emocional. A psicóloga explica que esse público historicamente recebeu pouca atenção na rede de saúde mental da região, que antes concentrava seus esforços principalmente nas demandas infantis.

Segundo ela, as mulheres do interior ainda enfrentam barreiras culturais profundas, resultado de uma criação tradicional que limitava perspectivas e reforçava relações desiguais. Esse cenário contribui para a dificuldade de reconhecer abusos, especialmente quando eles se apresentam de forma silenciosa, como na violência emocional ou moral.

“Há mulheres que acreditam que punição faz parte da relação ou justificam o comportamento do parceiro como ‘gênio forte’. Muitas não denunciam por medo, por vergonha ou pelas ameaças que recebem”, diz a psicóloga.

Ciclos de silêncio: a violência que não aparece

Eudiny compartilha experiências marcantes do seu trabalho tanto na clínica quanto na assistência social, onde já acompanhou casos graves de violência e abuso. A falta de informação, a ausência de educação sexual e os mitos sobre o comportamento feminino tornam o reconhecimento da violência ainda mais difícil.

Ela destaca que o primeiro pedido de ajuda deve acontecer no primeiro sinal de violência, seja ela física, psicológica ou emocional. E lembra que existem diversos canais de acolhimento e denúncia, como:

  • Disque 100
  • CREAS e CRAS
  • Delegacia de Polícia
  • Disque 180, para denúncias de violência contra a mulher

“É essencial que a mulher busque orientação profissional para entender o que está vivendo. Às vezes, ela só reconhece que está em um ciclo de abuso quando consegue falar sobre isso com alguém”, explica.

Rede de apoio: um caminho possível para recomeçar

A psicóloga reforça a importância da rede de proteção, que inclui atendimento psicológico, psiquiátrico e social. Em São Miguel, políticas públicas têm avançado, especialmente nas áreas de assistência social e saúde, oferecendo suporte para mães solo e famílias vulneráveis. Programas como o Bolsa Família, somados ao funcionamento de creches em turno integral, ajudam a garantir independência emocional e financeira às mulheres que decidem romper uma relação abusiva.

Ao mesmo tempo, a cultura comunitária do interior, marcada pela solidariedade e mobilização, também contribui para esse cuidado. “A gente vê campanhas, vaquinhas e ações espontâneas que mostram como o interior se apoia. Ainda assim, quando o assunto é violência doméstica, o medo de se envolver é um desafio que precisamos enfrentar”, completa.

A urgência que se renova: violência no Brasil cresce

A conversa ganha ainda mais peso diante da onda recente de violência contra mulheres no país. Nos últimos dias, casos graves envolvendo tentativas de assassinato, feminicídios e agressões brutais voltaram a ocupar o noticiário nacional, reacendendo a discussão sobre segurança e proteção.

Em 2025, mais de mil feminicídios já foram registrados no Brasil, um número que revela uma realidade alarmante e reforça a necessidade de informação, acolhimento e políticas públicas mais efetivas.

De São Miguel para além da calçada: o papel do diálogo

O episódio termina com um convite ao cuidado e à coragem. Eudiny deixa um recado para qualquer mulher que esteja vivendo violência: não silencie seus sentimentos, não minimize o que está acontecendo e procure ajuda. Compartilhar histórias, pedir orientação e buscar apoio profissional são passos fundamentais para quebrar o ciclo.

“Quando uma mulher conta a sua história, ela inspira outra. E quando duas se encontram, nasce força”, afirma.

Ouça o episódio completo no Spotify e no YouTube